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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Fifty Shades of Grey: Resenha - SPOILER ALERT

Não me olhem com essa cara, não. Sei que todo mundo está morrendo de curiosidade! Curiosidade, aliás, foi o que me levou a ler este livro. Não li resenhas, não sei do que a mídia falou. Confesso que estou bem fora do mundo midiático. Quando decidi ler o livro eu tinha as seguintes informações: best seller, leitores em sua maioria do sexo feminino, comentários de amigos (homens e mulheres) que variavam de "pesado", passavando por "pornô para cinquentonas" e chegando a "leve demais".

Com tantas dissonâncias, me vi tentada a folhear o tal livro que gerou tanta suposta polêmica.

"Crepúsculo para maiores" 
(ou "Fórmula para um romance de sucesso")

Assim como foi a curiosidade que me levou a ler Crepúsculo, as coincidências não param aí. Será coincidência que os dois se tornaram best sellers?

1) Da personagem feminina:

Tanto em Crepúsculo como em Fifty Shades of Grey, a genialidade do romance está na personagem principal. Isabella Swan e Anastasia Steele são a mesma pessoa: você.

Perceba que nenhuma delas é descrita em detalhes e que todas as suas características são comuns a 99% das mulheres: ser mais desajeitada do que graciosa, ter cabelos que não se comportam como queremos, ter problemas de autoestima e não se sentirem merecedoras de um Edward ou de um Christian... e por aí vai. Conheço poucas mulheres que não se identificariam com estas personagens. Ainda que não neste ponto da vida, em ALGUM ponto você foi Isabella Swan ou Anastasia Steele. Muito provavelmente na adolescência. 

Ficou fácil se identificar, né? Ficou fácil de entender por que o público leitor de ambos é essencialmente feminino, né?

E esses nomes óbvios, hein? Swan quer dizer cisne (lembra do Patinho Feio?). Steele vem de "steel", que quer dizer aço (algo durável e resistente).

2) Da personagem masculina:

Edward Cullen e Christian Grey também são a mesma pessoa. Desejáveis, perfeitos, inacessíveis (exceto que se apaixonaram por você, a desajeitada que não merece o cara), descritos à exaustão e com um defeito intolerável. Um é vampiro, imortal, bebe sangue e, para você ficar com ele e ser feliz para sempre, tem que sucumbir. O outro curte BDSM e é cheio das questões. E, para você ficar com ele e ser feliz para sempre, tem que sucumbir.

Outro nome óbvio aí: Grey, que é cinza. Não é preto nem é branco. É o meio termo que nem ele sabe se consegue ser, mas que Ana Steele quer que seja.

3) Do romance:

Basicamente a história de Crepúsculo e de Fifty Shades of Grey é assim: "conheci o cara perfeito", "o cara perfeito gosta de mim", "eu não mereço que o cara perfeito goste de mim", "o cara perfeito tem um defeito", "eu descobri esse defeito", "de repente até pode ser que eu mereça esse cara que não é mais tão perfeito assim", "eu aceito esse defeito".

Como não li as sequências de Crepúsculo e não pretendo ler as de Fifty Shades of Grey, não sei como isso se desenrola. Parece-me, no final das contas, que existem duas possibilidades: sucumbir ou largar o cara perfeito. Se alguém leu ou viu as continuações, me conta porque eu não vou ler nem assistir.

Agora, sobre os comentários, quem achou "leve" estava esperando mais do BDSM do que da história. É o mesmo que dizer que Edward brilha como fada e achar que esse é o cerne de Crepúsculo. Desculpa. Não é. Tanto Crepúsculo como Fifty Shades of Grey possuem o mesmo objetivo: vender livros para meninas que vão suspirar por Cullen ou Grey: o cara perfeito que tem um defeito inaceitável. Tão Romeu e Julieta quanto o próprio: o velho tema do amor proibido.

Como a maior parte dos best sellers, é um passatempo. Mas não esperemos muita profundidade daí. Tenho, no entanto, que dar mérito a uma qualidade de Fifty Shades: a menção de Tess of the D'Urbervilles, de Thomas Hardy, um dos meus romances favoritos de todos os tempos. Ainda que a menção seja a respeito dos aspectos mais irrelevantes do romance de Hardy, ela existe. Não sei como é a percepção de quem não leu Tess, mas eu gostei das sacadas e das comparações.

Bom, agora que já sei a fórmula do sucesso, vou escrever o meu best seller. Me ajudem a escolher o defeito inaceitável do meu galã:

(   ) canibal
(   ) gay
(   ) PSDBista
(   ) outro. Especificar: _______________


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Homens românticos vs mulheres manipuladoras

Você, pessoa antenada, já deve ter notado a quantidade alarmante de homens românticos que brotou do chão nos últimos tempos, não?

Você também já deve ter notado que todas as mulheres odeiam, humilham, torturam e exploram os coitados dos homens, não?

Bom, eu não sei de você, mas é isso que tenho visto nas redes sociais. Imagens como essas ao lado vivem aparecendo. E como as redes sociais somente refletem a verdade, deve ser isso mesmo.

Esse pessoal que fica botando lenha na fogueira da guerra dos sexos é, estranhamente, o mesmo pessoal que compartilha imagens dizendo que gays, negros, animais abandonados, vegetarianos e ateus são iguais. 

Só as mulheres não são?

Que coisa estranha. (É. Estou irritada mesmo.)

Desculpa aí, mas eu acho que um pouco de discernimento vai bem. Assim como tem homem (negro, gay, vegetariano, ateu, abandonado etc.) honesto, também tem mulher (negra, gay, vegetariana, ateia, abandonada etc.) honesta. Assim como tem homem (negro, gay, vegetariano, ateu, abandonado etc.) escroto, também tem mulher (negra, gay, vegetariana, ateia, abandonada etc.) escrota.

Entendeu? Ou quer que desenhe?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Príncipes, princesas e piriguetes

Essas postagens que estão circulando por aí criticando as piriguetes são tão machistas que me causam asco. Em tempo, essa é a única e última vez que usarei o termo "piriguete".

Quer dizer que um cara pode andar na rua sem camisa que, no máximo, vai ser chamado de "pedreiro". Uma mulher que usa saia curta é piriguete. Qualquer cretino quer uma princesa rosa. Mas se é mulher e usa saia curta, ela não tem direito a querer seu príncipe (rosa?). O tal do príncipe rosa sai no Carnaval e pega todas (piriguetes, portanto), mas no resto do ano se faz de é um perfeito gentleman. Portanto, príncipe. E rosa. Se a princesa rosa sai no Carnaval (e nem precisar pegar todos os "príncipes"), não é princesa. É piriguete. Não importa o que é no resto do ano. Se o príncipe rosa pega uma piriguete e bota chifre na princesa rosa, ela tem que ir para a torre chorar e esperar, fazendo tricô ou bordado, até que o príncipe volte. No seu cavalo branco, é claro. Se ela se vingar, é piriguete. E ai dela se quiser um cavalo branco próprio!

Isso é retroceder na luta que as mulheres travaram (e travam) há décadas. Daí a dizer que ela "pediu para ser estuprada" é um pulo. E derivam daí frases visivelmente machistas como "para o homem é currículo, para a mulher é antecedente".

O que é ser piriguete, afinal de contas?

Uma vez me deram uma definição, dizendo que piriguete é aquela mulher oferecida que destrói casamentos. Veja bem, se o príncipe fosse tão príncipe assim, não existiriam piriguetes. Certo? 

Agora, se ser piriguete é usar o que bem entende, fazer o que bem entende, sem medo de julgamento da avó, dos machistas, enrustidos ou declarados, e das testemunhas de Jeová, então, autoproclamados "cavalheiros", me desculpem. Mas sou muito mais as piriguetes do que as "damas" que vocês estão pedindo. Corrijam-me se estou com a definição errada, por favor.

Eu tenho, além do cavalo branco próprio, a chave da porta da torre para sair quando bem entender. E aposto que se a sua mãe não tem, ela bem que queria ter.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Expectativas

Créditos da foto: Patrícia Arima
As pessoas são bem esquisitas. Às vezes dizem que você tem que acreditar para acontecer. Às vezes dizem que você precisa baixar suas expectativas para que sejam compatíveis com a realidade. Às vezes, ainda, dizem que você não deve ter nenhuma para não se frustrar.

Expectativas, perspectivas... Não consigo entender como é possível viver sem isso. (Estou correndo o risco de voltar ao papo dos zumbis. De novo.)

É claro que tenho expectativas. Não no sentido de ficar esperando cair do céu não. Mas, se eu invisto tempo, dinheiro, energia ou qualquer que seja o valor em questão, é óbvio que eu tenho expectativas.

Se dou o melhor de mim, espero o melhor do mundo. Se faço meia-boca, não espero grandes coisas. Se não faço esforço nenhum, o que vier é lucro. Simples assim. Minhas expectativas são ajustadas de acordo com o meu investimento. E não me contento com menos.


Não dá para ficar ouvindo lamúria de quem não investe nada, não arrisca nada e fica reclamando que não ganha nada. Então, não me venham com essa ladainha de não ter expectativa para não se frustrar. Isso é coisa de preguiçoso e de quem conta com a sorte. Sorte ajuda sim, mas você é responsável por buscá-la.



‎"Você nasceu no lar que precisava nascer, vestiu o corpo físico que merecia, mora onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com o teu adiantamento.

Você possui os recursos financeiros coerentes com tuas necessidades... nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas. 

Seu ambiente de trabalho é o que você elegeu espontaneamente para a sua realização. 
Teus parentes e amigos são as almas que você mesmo atraiu, com tua própria afinidade. 
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle. 
Você escolhe, recolhe, elege, atrai, busca, expulsa, modifica tudo aquilo que te rodeia a existência. 
Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitudes. São as fontes de atração e repulsão na jornada da tua vivência. 
Não reclame, nem se faça de vítima. Antes de tudo, analisa e observa. 
A mudança está em tuas mãos. 
Reprograma tua meta, busca o bem e você viverá melhor. 
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." 

(Chico Xavier)


***

Para quem ainda não conhecia, essa na foto é a Bianca, a gata mais cão do mundo. Ela faz festa quando chego em casa, atende quando chamo, pede comida à mesa e até rosna de vez em quando. =)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

SOPA

Como eu não sei tirar o blog do ar para protestar devidamente, deixo aqui o meu protesto escrito. Não quero apoiar ou me silenciar diante de um ato que, disfarçado de proteção à propriedade intelectual, visa afetar a todos nós que, diariamente nos comunicamos, expressamos nossas ideias, discutimos e debatemos livremente na internet. Isso é o prelúdio à censura. É apagar pensamentos supostamente perigosos que vão contra aquilo que eles querem que pensemos. Pense nisso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Torcida de futebol, Michel Teló e zumbis

Parece-me que as redes sociais se tornaram um campo de batalha entre aqueles que amam e odeiam coisas que não merecem o drama.

Ora, o mundo está cheio de lixo desde sempre. Hoje é o BBB e o Michel Teló. Já tivemos Rala o Pinto, Xibom Bombom e Surra de Bunda. Acho que já deveríamos estar acostumados a passagens ilustres de porcarias de um verão só, ainda mais no país das bundas.

É importante que as redes sociais promovam discussões e debates. Só não vejo como discussões que se parecem com briga de torcida possam levar qualquer pessoa a qualquer tipo de crescimento.

O consumo de modismos não é senão reflexo daquilo que somos. Por que será que os filmes de zumbi e vampiros estão tão em alta? Coincidência? Acho que não.

Estamos no país manipulado por mídias que criticam o ensino de sociologia e filosofia no ensino obrigatório, dizendo que isso "impede o crescimento da nação", no país em que, acuados pelo medo, adotamos posturas autoritárias sem conhecimento de causa (e achando que estamos defendendo os nossos próprios interesses! ha!) e saímos por aí defendendo que deveria sim haver um Big Brother de verdade para controlar os meliantes. No entanto, gritamos contra a censura sem nem saber que estamos gritando a favor dela! 

E quando a Época diz que Michel Teló "traduziu os valores da cultura popular", não entendo o choque e a indignação. Primeiro, traduz MESMO: somos um povo  que não se mobiliza para pensar o coletivo e só se preocupa em pegar alguém na balada ou em xingar a outra torcida no Facebook. Segundo, quem é mesmo que edita a Época? Ah, tá.

Daí vamos às alternativas:

1) Desligue a TV. Ninguém obriga ninguém a assistir nada.
2) Desligue o computador. Idem.
3) Não quer desligar o computador? 

a. Há aplicativos que bloqueiam conteúdos indesejáveis.
b. Você sempre pode bloquear seus amigos que falam coisas indesejáveis.
c. Arrume amigos melhores, que compartilhem coisas mais interessantes e passíveis de debate verdadeiro (ainda bem que tenho vários desses na minha lista)
d. Leve com bom humor e ria das sátiras que postam por aí!



***

[EDIT] Terminei meu García Márquez. Não é nenhum "Amor nos tempos do cólera", mas gostei de "Memoria de mis putas tristes". E fiquei feliz de conseguir ler em espanhol. Já tinha lido alguns antes, do García Márquez, inclusive. Mas desta vez li rápido e sem perder muito do conteúdo. Sinal de que meu pobre espanhol está melhorando.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Economia(s)


Há alguns tipos de mesquinharia que são difíceis de entender.


Entendo uma pessoa que diz que não vai ao teatro com você porque não pode gastar dez reais. Vai saber da vida da pessoa. Vai saber que dívidas e que prioridades ela tem. Até entendo que você não queira oferecer a entrada ao amigo (é difícil, mas entendo. Às vezes não dá mesmo. E às vezes a companhia nem é tão boa assim, sei lá. Vai saber).

Também entendo uma pessoa que não compra um livro, ou um filme, ou um álbum. Que vai baixar de graça da internet, mesmo sabendo que está deixando de pagar royalties para um escritor, ou diretor, ou músicos (e todo o restante da equipe) que trabalharam, assim como eu e você trabalhamos, para que aquilo existisse. Até isso eu entendo. Que atire a primeira pedra quem nunca pirateou nada.

O que eu não entendo, honestamente, é economia de afeto.

Afeto que fica dentro de si não cresce, não rende e não se multiplica. Afeto só se multiplica quando você entrega.

Em que se ganha ao economizar um elogio ou uma palavra carinhosa? Em que se ganha ao economizar "eu te amo"? Alguém me explica, por favor? Não tem lógica. (Exceto, é claro, quando não se ama ou quando o elogio não é sincero. Acho que uma crítica bem colocada é um ato de carinho maior do que um falso elogio. Aí, tudo bem. Entendo a economia. É uma questão de sinceridade.)

Uma vez recebi, na função de coordenadora, a visita de um pai de aluno. Ele estava ali para resolver uma pendência financeira e aproveitou a visita para conversar comigo. Ele agradeceu por termos feito seu filho aprender e, principalmente, feito com que ele gostasse e se interessasse pelo curso. Ele disse que o filho gostava muito do professor e do modo como ensinava, das atividades e curiosidades que trazia. 

Eu poderia ter seguido com os compromissos da minha agenda apertada, simplesmente. Mas fiz questão de chamar o professor em minha sala, para comunicá-lo do ocorrido. Com ou sem essa informação, o professor teria continuado com o seu trabalho. Mas eu achei importante que ele soubesse que seu trabalho estava dando resultado e estava sendo reconhecido. Tenho certeza de que, ao colocar a cabeça no travesseiro à noite, este professor  pensou: "estou no caminho certo".

O professor continua fazendo o seu trabalho. A empregada continua limpando. O médico continua operando. O filósofo, filosofando. O mundo não vai parar porque não ouviu que é importante.

Ninguém morre por falta de afeto. Fato. 

Exceto o afeto em si.

domingo, 24 de abril de 2011

Overrated II

http://atomicwhoopeecushion.deviantart.com/art/Normal-Is-Overrated-126628019
Ovo de Páscoa... overrated
Sexo... overrated
TOC... overrated
Hiperatividade... overrated
Igualdade de direitos... overrated
Segurança no trânsito... overrated
Politicamente correto... overrated
Magreza... overrated
TPM... overrated
Casamento... overrated
Trabalho... overrated
Humanidade... overrated?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mulher de fases, e não é a dos Raimundos

Passada a fase de "morro-de-dó-de-mim-mesma" e a fase de "que-se-dane-o-mundo-vou-me-fechar-na-minha-concha" e "que-se-dane-o-cartão-de-crédito-vou-estourar-mesmo", entrei numa fase sem nome ainda.

Passou a revolta. Repensei todas as minhas decisões. Aceitei que as pessoas erram e que errar é humano e que, ainda que às vezes eu pense ser uma espécie de semideusa que tem total controle sobre minha vida, ainda sou humana e, portanto, tenho o direito de errar e de perder o controle vez ou outra. E penso também que tudo o que fiz faz parte de quem sou e que não dá para se condenar por escolhas que fizemos lá em mil novecentos e nada. Na época pareciam ser as melhores escolhas. E às vezes escolhemos por pura falta de escolha. Vai saber se eu conseguiria ter feito diferente.

É isso, sabe? Em conversa com uma colega de trabalho tão perfeccionista quanto esta que vos fala, proferi a seguinte frase: "Às vezes 'bom' é ótimo e 'excelente' é péssimo. Dar conta de tudo mais ou menos é melhor do que excelência nisso ou aquilo e deixar todo o resto a desejar".

E com a vida é assim também. Tudo o que fiz foi achando que seria o melhor possível. E talvez tenha sido. Não tenho títulos, não tenho reconhecimento, não tenho certificados, não tenho bens, mas tenho uma coisa que achava que todo mundo tinha e descobri que a maior parte das pessoas não tem: vida.

Vivo em qualidade, quantidade e intensidade.

Quantas pessoas de 32 anos podem dizer que já participaram de concurso de merengue no Chile completamente bêbados e com a roupa suja de lama? Quantas podem dizer que tocaram para mais de 300 pessoas uma música própria numa banda de garagem (com toda a galera cantando o refrão junto)? Quantas podem dizer que prestaram vestibular para sete carreiras diferentes, passaram em todas e sortearam para saber qual cursar, aí não gostaram do curso e, mesmo tendo passado na USP, desistiram depois de dois anos e foram prestar vestibular de novo? Quantas tiveram a manha de caronar mais de 3600km em uma só viagem? E viajar para ficar uma semana na Chapada dos Guimarães e acabar ficando o mês? Quantas tiveram bolsa de iniciação científica da Fapesp? E quantas sentaram numa mesa de bar para tomar uma cerveja com o Iron Maiden? Quantas se perderam no metrô em Paris sem saber falar francês? Quantas socaram um ladrão? Quantos corações partidos? Quantas partidas? Quantos casaram de branco, num espartilho que impedia a respiração? E quantos tomaram a decisão de separar? Quantos fizeram poesia? Quantos trabalharam em mil empregos com mil funções diferentes (de negociar vendas milionárias até lavar prato e passear cachorro, não necessariamente nesta ordem)?

E quantos fizeram tudo isso na mesma vida?

Não sou melhor do que ninguém, mas enquanto o povo estava tirando certificado, acumulando bens e se batendo por dinheiro reconhecimento, eu estava vivendo, fazendo coisas, me tornando uma pessoa mais interessante.

Agora vou correr atrás do prejuízo e tentar arrumar títulos e bens. Mas ó: eu fiz um montão de coisas. Não deixei para fazer na aposentadoria (porque acho que viver com o objetivo de se aposentar é muito podre). E vou continuar fazendo coisas, sabe? Aula de tango, enfim. Não tenho certificado de nenhuma das coisas que fiz, mas certamente tenho histórias para contar...

quarta-feira, 23 de março de 2011

Daqui pra frente

Muito bem. Declaro que, a partir da presente data, acabou a autopiedade e consequente autoindulgência. O que foi, foi. O que não foi, não foi. Mas o que será começa agora. Me aguentem.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Crítica

Quando estava ainda na faculdade, fiz Iniciação Científica. Trabalhei com um orientador que não elogia. Era crítica depois de crítica. E ele era grosso mesmo. Chegou a amassar e jogar meu projeto no lixo, na minha frente, mais de uma vez. Mas me mantive firme e, depois de três meses enfiada na biblioteca, consegui rascunhar alguma coisa minimamente aceitável, nas palavras dele.

No decorrer do trabalho, a dinâmica continuou a mesma. Isso aqui está um lixo. Isso está uma droga. Isso não faz sentido. Isso isso, isso aquilo.

Até que, num belo dia, conheci um de seus outros orientandos. Sua saudação foi "Finalmente estou conhecendo a famosa Patrícia!". Minha reação foi de total surpresa. "Famosa"? Ele continuou, dizendo que todo o grupo de orientandos recebeu uma mensagem de email com o meu projeto em anexo, em que o nosso orientador se rasgava em elogios e dizia que aquilo deveria ser tomado como um exemplo.

Não sei se deveria ter me sentido lisonjeada, mas o fato é que me senti traída. E, quando o confrontei, ele me justificou dizendo que um aluno elogiado é um aluno conformado. Que um aluno só anda para frente sob crítica. Entendi sua posição, mas ao longo dos meses minha motivação foi murchando. Eu me sentia um lixo, um fracasso total, não tinha mais vontade de prosseguir na pesquisa. Qualquer esforço meu seria em vão, porque meu trabalho nunca estaria à altura. Quando terminei o relatório final, tinha a nítida sensação de que poderia ter feito algo muito melhor.

Essa luta por perfeição é uma luta perdida, na minha opinião. Acho que sim, devemos sempre tentar ir para frente. E sim, a crítica pode ajudar a impulsionar alguém que está sentado e acomodado. Mas ninguém vive só de crítica.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Apocalipse zumbi

É sensacional que os zumbis estejam em alta. Até "Pride and Prejudice" virou zumbi. (Aliás, ainda não li.)

Não digo isso porque simpatizo com criaturas com fome de cérebro ou porque os considero "fofos". (Já escrevi sobre a obrigatoriedade de ser fofo?). Longe disso. Mas, acho que nenhuma imagem retrata tão bem a sociedade contemporânea quando um ataque zumbi: um bando de mortos-vivos estupidificados devorando-se uns aos outros. Talvez o ato antropofágico seja uma tentativa de incorporar as qualidades do outro, como era antes da vinda dos jesuítas. Em vão, infelizmente.

E aqueles que não viraram zumbi buscam sobreviver a qualquer custo. Porém, em um conceito de mundo que já não existe mais. Para ter sucesso (ainda que temporário), precisam aliar o que ainda restou do mundo como o conhecemos com as condições primitivas de uma existência sem energia elétrica, internet, telefone...

Adoro.

Vou aproveitar o espaço para ajudar a divulgar o trabalho da minha amiga Ana (Osso), designer e nerd em tempo integral. Na página http://www.ossoz.com.br/blog/?p=327 ela vende camisetas de zumbis (fofos, notem) e mostra um pouquinho do seu trabalho. Navegando pelo site você encontra diversos zumbis e outras criaturinhas legais!

Procurando uma imagem legal para ilustrar meu post, me deparei com esta:

... And that pretty much summons that up.


*Não sei se a imagem tem direitos autorais. Gostaria de ter citado o artista, mas simplesmente não encontrei.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Crepúsculo

Confesso que li este livro por curiosidade. Alunas de 11 a 35 anos devorando os livros me fizeram lê-lo. Gosto de criticar com propriedade ao invés de dizer "Nunca experimentei, mas não gosto de jiló".

O livro é péssimo não somente porque é um best-seller. Não sou acadêmica, não pré-julgo nada. Leio muito best-seller e acho um ótimo passatempo, mas confesso que me decepcionei muito com "Crepúsculo".

Acho que o que inspira as meninas é a descrição do primeiro amor. Para as mais novas, há identificação. Para as mais velhas, é recordar. E, mesmo assim, se o tema do primeiro amor é central, ficou muito pobre na narrativa. Se perdeu no meio dos vampiros (muito melhor explorados por Anne Rice ou Bram Stoker), da ação e do cenário Hollywoodiano. Me parece que o livro já foi escrito pensando em virar filme. Ou para pessoas que só assistem filmes e não gostam de ler.

Além disso, é maniqueísta, superficial, linear e ingênuo. Demais. Até mesmo para quem lê best-sellers.

Se você tem curiosidade também, assista o filme. Perder duas horas é melhor do que perder quatro.

Agora preciso de um livro novo. Qualquer um.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sobre a não-responsabilidade

Acho que a pior doença de que sofremos hoje é a da não-responsabilidade. Sobre nada, eu digo. É possível que a especialização de nossas carreiras tenha contribuído para isso, mas às vezes acho que não: a raça humana ficou tosca mesmo.

Quando íamos ao médico, íamos ao médico. Hoje, você vai ao clínico geral. Se você tiver ACNE, você sai do consultório (cuja consulta lhe custou algumas horas de seu trabalho + seu tempo) com um papelzinho de encaminhamento para o dermatologista.

No caso dos filhos é ainda pior. Por serem obrigadas a trabalhar (pois a economia doméstica não é compatível com só um contribuinte), as mulheres delegam a educação de seus filhos para quem quer que seja: a escola, o curso de inglês, o futebol, a empregada e - a salvação da humanidade - à tevê a cabo e à internet.

Um desses dias me deparei com a idéia genial de criar o Depósito de Crianças. Pela módica quantia de 100 reais por mês, você deposita seu filho em nossa instituição. Aqui, ele não aprende nada e nem finge que aprende (assim, nós também não temos que fingir que ensinamos), mas nós garantimos sua integridade física e garantimos que ele não gerará outros filhos, já que em nossa instituição você conta com jaulinhas individuais, devidamente higienizadas. Mais barato que qualquer curso e você se livra de seu filho por muito mais tempo! E não é só isso! Se ligar agora, você ainda ganha uma almofada, para seu filho ficar ainda mais confortável! E se for um dos primeiros 15 a ligar, você ganha uma outra almofada: esta, para você, que poderá aproveitar o dia todo sem seu filho te enchendo o saco!

Acho que ficaria rica com isso se a sociedade não fosse tão hipócrita.

No meu dia-a-dia, converso com ótimas candidatas e candidatos a cliente para o Depósito de Crianças. É fácil julgar quando não temos filhos. Mas a falta de responsabilidade, não só dos pais como dos filhos também, está gerando uma era de depressão - e não precisa ser gênio para ver. Nos pais porque se sentem impotentes perante seus filhos. Nos filhos porque quando não há responsabilidade, não há conquista. E se nada significa nada, para que fazer algo?

Todos os dias ouço coisas como:

"Se meu filho não faz as tarefas é VOCÊ quem tem que cobrar. Quem é que é da escola?"
"Meu filho não vai passar?! Quem você pensa que é para reprová-lo?!"
"Ah, ele é assim mesmo... Que se vai fazer?"
"Ah, você sabe que se vocês reprovarem meu filho, eu vou tirar daqui, né?"
"Minha filha tem problema de aprendizagem? Não tem não. Levei ela no gastro e ele não falou nada disso."

E me dá uma vontade de oferecer os serviços do Depósito...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Long time no see

Nossa, faz mesmo muito tempo que não me dedico ao blog... Pensando bem, faz muito tempo que não me dedico a nada que não seja remunerado. Acho que este tipo de vida não me faz bem.

Sinto falta...

... de olhar pela janela só para admirar o mundo
... de pintar
... de fazer com que as coisas cotidianas se tornem poesia
... de fazer a poesia cotidiana
... de passar um dia inteiro pensando em nada especial
... de lavar quintal, passar roupa e saber onde estão minhas coisas dentro da minha própria casa
... de ouvir música na vitrola
... de ler um livro ao sol
... de andar de ônibus sem precisar andar de ônibus
... de ser turista em minha cidade

Como a gente se deixa engolir pela rotina, pelo trabalho e pela eterna busca de pagar nossas dívidas. Que destino vazio! No final, as melhores coisas da vida não custam nada. Sabe o pôr-do-sol de ontem? Nem eu. E sabe o que mais? Ele não volta. Já era.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Símbolos malignos da contemporaneidade

1) Atualizar amizades por scrapbook do Orkut;

2) Perder 1/4 do seu tempo de vigília parado no trânsito;

3) Virar radical de extrema-direita do dia para a noite;

4) Aparelho ortodôntico;

5) Saber que seus genes de dentes tortos deveriam SUMIR da face da Terra e ainda assim insistir em passá-los adiante;

6) Não saber mais onde fica a fila do caixa convencional do seu banco;

7) Descobrir que almoçar inflacionou cerca de 500% nos últimos cinco anos, sendo que o Ceagesp indicou deflação no preço da matéria-prima;

8) Desaprendizado do traquejo social;

9) Substituição do livro pelo DVD;

10) Achar que o cara da medicina que metralhou um monte de gente no Shopping Morumbi estava certo.