
Já comi olho de peixe no Ceará.
Já dancei merengue no Chile.
Já me arrebentei ao cair de uma árvore aos dezessete anos.
Já me apaixonei perdidamente.
Já passei no vestibular. Três vezes.
Já preparei centenas de pessoas que passaram no vestibular.
Já tive pedra no rim. E ela ali permanece.
Já caronei 3600km em uma mesma viagem.
Já raspei a cabeça.
Já tive cabelo na cintura.
Já fui loira.
Já me casei de branco.
Já toquei guitarra em público.
Já tive dezenas de inimigos.
Já fiquei quase um ano juntando dinheiro para comprar uma calça da M. Officer.
Já briguei de mão com o ladrão.
Já demiti funcionários.
Já demiti chefes.
Já fui no Canto da Ema.
Já acordei sozinha no hospital depois de uma bebedeira memorável.
Já trabalhei lavando pratos e esfregando chão.
Já comi acarajé "quente" na Bahia.
Já dou aula para filhos de amigos.
Já passaram pela minha vida milhares de pessoas. Algumas ficaram, outras se foram, outras ainda voltaram.
Já percorri uma parte da minha vida e estou feliz com a trajetória.
Quando eu tinha 23 anos, um amigo de 45 me perguntou: "Como pode você ter a metade da minha idade e ter vivido o dobro do que vivi?"
Na época eu não respondi. Apenas sorri.
J., se ainda quiser saber a resposta, é simples. As oportunidades se apresentam sempre. Às vezes só precisamos esticar a mão para agarrá-las. As pessoas fazem um esforço tremendo para desviar da oportunidade, quando era só ficar ali, parado, e ser atropelado por ela. Mas o medo da mudança, do novo, do diferente, impede que vivamos novas experiências. Viva, ué. O pior que pode acontecer é você arrebentar a cara. Mas isso também não é vivência? Muitas vezes arrebentar a cara e ter vivido vale muito mais do que nunca ter tentado.
Com o tempo e a experiência, passamos a medir melhor o tamanho dos tombos. Mas se não estiver disposto a levar alguns, meu amigo, é melhor se enterrar porque quem não vive está morto.
(A foto foi tirada na viagem de carro que fiz à Bahia. Estávamos indo de Itacaré a Porto Seguro).