terça-feira, 21 de junho de 2005

O peso social da idade

Na semana passada levei bronca da ginecologista porque o último ultra-som que fiz dos peitos (ou de onde eles deveriam existir) foi há mais de 10 anos. Suas palavras foram: "Na sua idade, não dá para bobear não! Tem que fazer uma vez por ano, pelo menos, viu?". Pronto. Agora está atestado, com CRM e tudo o mais, o que meu corpo já sentia: estou velha.

O pior de tudo não é saber que suas articulações não funcionam como antes, que sua tolerância à dor diminuiu ou que você não pode mais ficar 10 anos sem fazer ultra-som nos peitos. O pior de tudo é o peso social que isso tem.

Meu último post todo feliz foi uma ode à não-responsabilidade. E recebi tanto aplauso por ele que me sinto até culpada por me sentir culpada por estar velha.

Meu cérebro está absolutamente travado. Sinto uma carga tão grande sobre mim que, mesmo com bastante tempo, estou simplesmente incapaz de produzir um trabalho para uma matéria de pós-graduação. Quem dirá um projeto de mestrado. Eu achei que tinha um tema, mas não tenho mais.

Essa liberdade toda está me afligindo. Meu enorme problema é que são tantas as possibilidades que eu não consigo vislumbrar uma. Por que a professora não deu um trabalho do tipo "discorra sobre a relação do narrador com o protagonista no romance X"? Por que toda essa liberdade?! Agora eu não sei o que fazer. E o tempo corre. E as coisas urgem. E eu me sinto um lixo porque não consigo deixar de olhar para o papel em branco. E me sinto mais lixo ainda porque não posso culpar nada fora de mim para justificar meu papel em branco. Não estou trabalhando, não estou fazendo 800 créditos na faculdade, não estou sustentando ninguém. E não posso culpar o mundo pela minha própria incapacidade de produzir alguma coisa frutífera.

E nada disso estaria acontecendo não fosse o peso social da idade.

O pior de tudo: não são os outros que estão cobrando. Sou eu mesma. A pior, mais implacável e mais cruel cobradora de todas. Eu.

Eu odeio saber que me vendi a uma ideologia podre. Odeio me sentir culpada por não estar produzindo nada. Odeio não saber o que estudar e ficar perdida que nem filha da puta em dia dos pais para lá e para cá sem chegar a lugar algum. E odeio quem, aos 7 anos de idade, já sabia o que fazer, fez e está feliz. E odeio mais ainda esses putos que, aos 26, são doutores. O que um puto, aos 26 anos, sabe do mundo para ser doutor?! Por conseqüência, odeio as instituições que financiam a pesquisa e que fabricam doutores de 26 (pois aos 30 já estamos senis), para contabilizar mais números para o país e deixar os mesmos putos desempregados porque a hora de um mestre é mais barata que a de um doutor.

Volto a trabalhar em julho ainda. Para poder culpar o novo emprego pela minha incompetência intelectual.

6 comentários:

  1. Paty, minha linda, calma!!!
    Todo mundo passa por isso em algum momento da vida. Eu já passei e sobrevivi. E resolvi q só devo alguma coisa pra mim mesma. E que as coisas terão o peso que EU quiser, não o q a sociedade diz. Por exemplo, a minha carreira está na frente do casamento, a minha família está na frente de tudo, os meus amigos estão no meu coração, mesmo q todos digam q não existe amizade verdadeira e q o mundo é mau. Quem decide isso, sou eu. E vc, minha ninfa nipônica, fará isso ainda melhor do que eu, pois é inteligente, antenada, brilhante e linda, linda. Sem falar, que parece ter só 16 anos!!! Se vc está velha mulher, eu já deveria ter sido mumificada!!!! Fica bem
    Bjs

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  2. Amor,
    Eu sei que minha capacidade de ação é limitada nesta questão, mas espero que eu esteja ajudando um tiquinho...
    Eu já te disse isso, mas vou repetir: eu te amo como você é. Pra mim vc não precisa fazer nada, não precisa provar nada... em especial, não quero que vc se force a fazer coisas que te deixem angustiada e triste.

    Se as folhas estão em branco, é porque ainda não é o momento de serem povoadas... A resposta do momento é a vida, não as próprias folhas.

    Te amo... adorei estar com você ontem!

    Beijo na boca!

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  3. é assim mesmo. outro dia eu estava feliz por ser um rebelde e não participar da ginástica laboral. aí eu pensei: quem estou prejudicando além do meu próprio corpo? não é coisa de velho. é consciência de que o mais prejudicado é você mesmo.

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  4. Adorei a frase "E odeio mais ainda esses putos que, aos 26, são doutores.". Às vezes tenho o mesmo sentimento - talvez movido pela mesma voz interna que me diz "Você já deveria estar pelo menos defendendo o mestrado."...

    Quanto à "velhice", faz tempo que venho me sentindo assim. Há quem ache que é frescura ou coisa do tipo, mas claro que não. Como você bem disse, aos poucos a idade vai pesando.

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  5. Amei, amei. Quando a idade vem com carimbo do CRM é o fim!
    bjs

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  6. Céus, relaxa! Vc ainda está nos 26! ;)

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