Embora ainda seja um tema polêmico, acredito que as pessoas nascem com certas aptidões. Isso não impede que desenvolvamos habilidades com o tempo, é claro. Até eu consegui aprender matemática o suficiente para passar no vestibular.
A grande questão da busca profissional, na minha opinião, é aliar a nossa aptidão natural com o quanto o mercado está querendo pagar por ela. Outro dia li uma entrevista com um headhunter (mas esqueci o nome dele) em que ele diz que carreira se constroi se conseguirmos juntar três requisitos:
1) Gostar do que faz;
2) Fazer bem;
3) Ter alguém disposto a pagar por isso.
Se qualquer dos três elementos estiver em falta, não é carreira.
Já ouvi mais de uma pessoa dizendo que tenho talento para música e que eu deveria largar tudo para tentar viver disso. Juro que não concordo e não é falsa modéstia (já disse que odeio falsa modéstia? Se não disse, digo agora: odeio falsa modéstia).
Aos onze anos fui tomada por uma paixão inexplicável pela música. Meu irmão já vinha insistindo havia algum tempo para que minha mãe o matriculasse num curso de teclado. Eu me juntei ao coro e conseguimos que meus pais nos colocassem em uma escolinha de música aqui no bairro. Depois de poucos meses, meu irmão desistiu. E eu continuei. Estudei um ano. Quando decidi parar de estudar, minha mãe ficou uma fera: "Você não termina nada!" Ora. É lógico que termino. Eu terminei meu curso. O que eu queria era aprender a ler partitura. E aprendi! Até solfejar eu sei! - ou sabia.

Dos doze aos dezoito eu continuei tocando. Comprava as partituras ali na Rua Direita. Primeiro as mais simples. Depois Bach, Mozart... Qualquer pessoa que toca piano sabe que sou péssima, mas que se dane. E formei minha primeira banda de rock. Minha amiga que tocava guitarra me ensinou uma meia dúzia de acordes (é o que sei até hoje), já que a necessidade de uma segunda guitarra era maior do que a de um teclado. Logo fui chamada para tocar teclado em outra banda. E mais outra. E mais outra. Minha vida aos dezoito era música. Além dos ensaios com as bandas, somava mais de doze horas por semana entre ensaios do coral e aulas de teclado, vocal e guitarra (voltei a estudar para ver se aprendia alguma coisa de harmonia, mas infelizmente não consegui). Ainda estudava e trabalhava (para pagar meus cursos).
E logo veio a rotina e, de uma hora para outra, não havia mais tempo para a música. Era só estudo e trabalho.
E passaram-se mais de dez anos.
De vez em quando me arrisco no karaokê. Na última festa me arrisquei a tocar a minha meia dúzia de acordes no violão de cordas de aço (e quase morri de dor porque não tenho mais calos nos dedos). Mas é isso. Música é hobby. Eu sei que não tenho talento. O que sei dá para enganar um leigo bem leigo. E só sei o que sei porque há anos de dedicação ali.
Estou querendo retomar meu passatempo. Pretendo comprar um violão novo em breve, já que o meu está em estado de calamidade, depois de um hiato de dez anos sem uso. O corpo do violão está rachado e nem segurar a afinação ele segura mais. Vi um Yamaha legal por preço pagável. Cordas de nylon, é claro.
Dizem que canto com a alma. Que arrepia. Já me disseram para ir para o programa de calouros do Raul Gil. Olha, eu não vou. Minha voz não é trabalhada, não sei impostar direito, vibrato é uma coisa de outro mundo, eu desafino, tenho péssimo ouvido (e quem me ouve também), minha noção de ritmo é sofrível e morro de vergonha de cantar em um palco. Minha voz até some. Mas as pessoas tem razão em parte. Eu canto com a alma sim. Música é uma paixão. Não um talento. Faz sentido.
E a dica é: se sua paixão não é igual ao seu talento inato, que se dane. Se mate de praticar para ser medíocre naquilo, ué. Antes apaixonado e medíocre do que ter para sempre um amor inalcançável.
E tenha dó dos meus futuros vizinhos.